quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cartas secretas para uma amiga anônima

Hoje me deu saudade de ti.
Não só de ti, mas do contexto todo!
Abril foi o mês mais maluco da minha vida, e não por acaso ele começou por aí!
Olhar pra trás e lembrar de tudo, e praticamente não acreditar. Mais de mil quilômetros de estrada, mais de vinte horas de viagem. E lá estava eu, e lá estávamos nós, nos vendo cara a cara depois de mais de dois anos!
E São Paulo é uma loucura! Onde mais eu ia encontrar uma exposição com manuscritos do David Bowie, ou uma aglomeração de gente tão absurda, e uma arquitetura tão maluca (do belo ao extremo brega em menos de umas quadras)?
E quantas epifanias eu não senti nessa cidade que pressentiram acontecimentos futuros vindouros? E as peregrinações de ônibus e metrôs? E ir semi-de-ressaca comer pastel com caldo-de-cana na feira?
Não, não, tudo foi muito louco e muito fantástico.
Tudo está e estará guardado num cantinho muito especial no meu hipocampo.

Ah, e só pra concluir. Lembrando de quanto eramos adolescentes em Maringá, com longos cabelos cacheados e tênis de lona vermelha conversando sobre crises sentimentais no pátio de colégio. Será que esses dois adolescente em algum momento se imaginaram discutindo suas vidas acadêmicas bebendo cerveja num banco de buteco no meio da Augusta? Ai, ai, como é bom quando o script da vida surpreende!

                                                                                         
                                                                                   Com todo o amor do Mundo,
                                                                                   Teu amigo de longa data!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Homem Normal

Tem dias que eu acordo com vontade de ser um homem normal.
Camisa polo de marca, cabelo impecavelmente curto, barba sempre bem feita.
Tem dias que eu acordo com vontade de ser um homem normal. Beber cerveja no final de semana, fazer uma faculdade particular de algum curso como administração, ciências contábeis, relações públicas ou qualquer outras dessas coisas rentáveis que não exigem criatividade.
Tem dias que eu queria ter feito uma cirurgia depois de ter lesionado meu joelho jogando bola, ou de reclamar se o almoço não tinha carne. Vontade de não me preocupar com música, literatura, comportamento, filosofia, política e essas coisas. Vontade de conseguir dizer discursos em favor dos "direitos do cidadão de bem" e criticando o "assistencialismo público" da boca pra fora e na real não dar a menor bola pra isso.
Imagina então dar bola ao preço de uma roupa! De tentar comprar um carro, de tentar comprar perfumes. Sonhar em viver uma vida de jogador de futebol no exterior!
Queria não saber como se forma a estrutura terciária de uma proteína, ou o nome dos tecidos de sustentação vegetal. Queria era poder ouvir sertanejo universitário na balada sexta e não me sentir mal com isso.
Quem sabe não me apaixonar, ser machista e machão, mas mesmo assim me juntar com alguém por inércia quando eu chegar nos 30. Quem sabe frequentar uma Igreja, quem sabe acreditar em Deus sem fazer esforço.

Na real esquece tudo!
Estou subestimando os pobres dos Homens Normais, eles também devem ter suas dores e seus tormentos, anseios e frustrações. Afinal, todo mundo é louco na sua loucura, e só o mais louco dos loucos afirma a si próprio que é normal!





sábado, 3 de maio de 2014

Biologia III

A beleza que vemos na Natureza permite imaginar uma hipótese interessante.
A contemplação da Natureza e alguns outros momentos bem específicos da vida tem um grau de sublimidade que vai além das nossas experiência habituais.
Bom, a hipótese é a seguinte.
E se a beleza que vemos na Natureza for o fascínio que ela tem ao ver ela mesma?
Somos partes integrantes desse sistema, mesmo se negarmos piamente e mesmo se aceitarmos os doze mil de anos de filosofia eurasiana que prega a dicotomia homem/natureza, somos parte dela sim.
E nós somos parte dela.
E ela é parte de nós.
E nós somos a mesma coisa.
E quando eu a vejo ela se vê.
E ela vê o quão bonita ela é.
E eu tenho a sensação de contemplação mais maluca do mundo.

Sei que olhar a extensão do Oceano Atlântico de cima dos rochedos de Imbituba não foi uma experiência pura e simplesmente dos meus olhos, nervos e sinapses. Muito menos admirar diatomáceas num microscópio. Muito menos ver a terra vermelha de Minas e suas colinas. Muito menos ver os campos de cima da cerra com suas araucárias e sua imensidão de terra verde e limpa e infinita. Sei que não era só coisa dos sentidos me abrigar embaixo de uma cachoeira em Maquiné, nem correr nas areias brancas de Florianópolis, muito menos acordar e me perder naqueles olhos azuis-escuros...

A beleza da Natureza vai além do mero sistematismo científico e da percepção fria das coisas.

domingo, 27 de abril de 2014

Coração Ocidental


I

Nada como um dia de toca
Nada como os pés descalços
Nada como um dia de folga
Nada como um café quente
Com o corpo jogado no canto
E a cabeça longe da gente.



II

Caminhando pela cidade
percebo que já era obviedade.
Que eu, mesmo sem pensar,
sou muito ruim em lidar
com essa recém-adquirida Liberdade.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Nomeclatura Rebuscado-Bioquímica Associada ao Ambito Social e Sentimental


Amores fisiológicos
Lealdades anfipáticas
Labores robóticos

Coerções alostéricas
Imposições cáusticas
Verdades elétricas

Ócios sobrenadantes
Comércios infecciosos
Apoptoses constantes

E pra manter a pose
Em nome da ciência
vou deixar a referência:
RIGOTTI, 2014


domingo, 23 de março de 2014

Olhando para trás...

Faziam mais de meses que o rapaz estava de namoro sério com a ex-ficante de um amigo dele. Segundo todas as fontes oficiais, o termino dos dois tinha sido tão abrupto e esquisito quanto o começo do relacionamento. Com o lance rompido, a garota estava livre para viver o amor que quisesse, e encontrou no amigo de seu antigo rapaz a sua alma gêmea. E os dois formavam um dos casais mais felizes da face da Terra.

Um dia os dois amigo se reencontraram. O rapaz encontrou seu amigo sentado quieto e taciturno em um banco na praça, fumando um cigarro barato de papel. Ele já presumiu o que se passava na cabeça do amigo, e não entendeu...  Não faziam meses que eles tinham terminado? Ele já não tinha lhe falado um milhão de vezes de como o relacionamento dos dois era complicado? Porque diabos haveria ele de estar com aquela cara amarrada e aqueles olhos pesaroso?

O amigo olhou para o rapaz e falou:
-Pois é, meu caro... Ontem resolvi parar e olhar pra trás...
-Como assim? -responde o rapaz-
-Sobre tudo, sobre as paradas, sobre a Solidão, essa linda...
-Ainda não saquei...
-Então cara, ontem resolvi parar um pouquinho pra pensar, e cheguei numa conclusão interessante! É meio bad, mas quer ouvir??
-Ah, manda!
-Olha, é até bonito de falar. Cheguei a conclusão de que "estamos sempre sozinhos. E que, na Escuridão, até nossa sombra deixa de nos acompanhar!" Bonito, não??
-Bah, pesado!

Depois do dialogo o rapaz só viu seu amigo dar uma risada breve e uma longa tragada no cigarro. Nisso tudo fez sentido. Ele não sentia falta da garota, ele não estava com ciúme, com inveja ou com algum outro sentimento baixo desses, ele era esclarecido demais pra isso! Ele estava sozinho, pura e simplesmente, ele estava sozinho e sentindo falta do que poderia ter acontecido... E agora ele estava lá, desabafando. Desabafar é bom, sempre. Desabafar sobre a tristeza é como fumar um daqueles cigarros de papel baratos. Você pega o teu desconforto, ateia fogo nele, e aquilo te faz mal enquanto desaparece em fumaça, até sumir por completo e pra sempre!

terça-feira, 11 de março de 2014

Biologia-II


O Sol quente caindo pela janela,
E os mosquitos picando a canela...

O tédio completo alcança níveis excruciantes
E as certezas de agora divergem das de antes

A caminhada é longa
A rotina é uma outra
A comida é pouca
E o vento sopra contra.

Prefiro acreditar na força dos meus braços
E no passar dos dias
Pra fazer brotar vida nestes solos escassos.

A força dos ideais sempre ressurge,
mas é complicado andar descalço na urze
para quem passou vida inteira na urbe.

O homem moderno tem ideias muito erradas de o que é a Natureza. Para o homem urbano é fácil encarar ela com desprezo ou com fascínio, pois é algo abstrato a sua realidade cotidiana. Só digo que é perigoso ver ela como um paraíso na Terra... 

Mas sou um hipócrita ao falar isso...
Por que ainda vejo tudo sob filtros românticos
Vendo equilíbrio e sílfides e cânticos
Onde na verdade só tem mato...
Lá precisa-se perder o tato
os gostos e confortos
a viver como os Espartanos.

Mas não adianta...
Passam-se os dias
Passam-se os anos
E eu continuo russeauniano!