Um brinde, amigos!!! Lhes proponho um brinde!
Brindemos em nome da nossa mediocridade! Brindemos em honra da nossa mediocridade enquanto estudantes, da nossa mediocridade enquanto acadêmicos, da nossa mediocridade enquanto escritores.
A muito tempo nós estamos aqui tentando dar o nosso melhor, porém somente no mundo das ideias ocorre esse esforço. Às favas com o mundo das ideias, às favas com essas baboseiras, e um forte viva aos nossos longos dias de mesmice.
Vamos repassar os roteiros e as falas, ensaiar bem as deixas, arrumar o cenário direitinho e assumir de ver o nosso papel nessa peça! Vamos fingir que nos esforçamos em nossos empregos, vamos fingir que gostamos da ideia de moral e dos bons costumes, vamos fingir que esse negócio de uma vida rotineira e regrada é o natural da espécie humana!
Vamos escrever páginas e páginas e páginas de ladainha inócua e sem graça, vamos escrever toneladas desse pão branco que só estufa e não alimenta! E vamos ganhar dinheiro, céus!!! Vamos ganhar dinheiro, muito dinheiro, e ser felizes com isso!
Vamos ignorar completamente essas coisas das artes e do espírito. Vamos escutar música medíocre, vamos afinar de novo nossos instrumentos e nos contentar com nossa mediocridade enquanto músicos. Vamos nos contentar com nossa mediocridade em relação à filosofia, em relação às coisas do espírito e da existência. Vamos parar de ter essa paranoia do cachorro correndo atrás do próprio rabo e vamos assumir que Deus é um velho barbudo que criou o mundo e as coisas e que só existe para punir os malditos e os impuros e dar a benção da mediocridade eterna a todos os dignos de tal!
Vamos ficar velhos, mas não aqueles velhos maduros, fortes e cheios de histórias e vitalidade. Não, vamos ser velho chatos e amargurados, querendo que o mundo nos dê nossa juventude de volta. Vamos ser velhos chatos e insuportáveis que só prestam para apurrinhar e família e os vizinhos.
E vamos tentar morrer da doença mais medíocre que a medicina for capaz de descrever!!!
Um brinde amigos, um brinde, e viremos este martelinho de cachaça e que nossa vida seja a mais inócua e sem-sal possível. E que essa ilusão seja entronizada e deglutida com o mesmo ardor dessa bebida!
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Eu
Esses dias me encontrei andando na rua.
Eram onze e meia, meio dia, no centro da cidade, na Rua dos Andradas com o sol à pino. E lá estava eu saindo andando tranquilamente pelo calçadão...
Obviamente não compreendi de primeira, tive de forçar os olhos umas três vezes, mas não tinha como negar, era eu. Um pouquinho diferente, uma coisa que contra, mas definitivamente era eu.
Era engraçado, eu e o outro eu que estava caminhando na rua tínhamos algumas diferenças nítidas, a começar pela barba feita, pelo terno cinza justíssimo e o topete alto e ridículo que ele estava usando. Em que Universo eu estaria vestindo aquilo?!
No fim, depois de hesitar um pouco decidi ir tratar com aquele estranho que era eu. Interpelei-o na rua logo de frente e cumprimentei ele, e de imediato nos abraçamos fortemente como amigos que não se viam a muito tempo. Com certeza ele também sabia que ele era eu, e vice e versa.
Por ser próximo a hora do almoço, ele decidiu me convidar para almoçar num restaurante chinês que havia nas proximidades. Chegamos, nos servimos e conversamos e rimos a refeição toda. Em nenhum momento conversamos sobre essa coisa da identidade e tudo mais, nem eu nem ele estávamos dispostos a começar esse tipo de confusão na hora do almoço. Conversamos sobre os planos, sobre nossos empregos, ele perguntou como andava minha vida de professor de colégio, e eu perguntei como andava sua vida de advogado. É claro que sabíamos as profissões uns dos outros.
Mas tínhamos muito em comum, é claro. Rimos ao perceber que nenhum de nós se serviu de carne vermelha nem nada com cebola, e que tínhamos pego praticamente porções idênticas de comida. Conversamos sobre os amigos do passado, sobre as maluquísses da nossa juventude, sobre nossas paixões e anseios, sobre as mulheres que amamos e deixamos de amar. Conversamos sobre futebol, sobre literatura, sobre filmes de comédia pastelão. Conversamos todo tipo de amenidade que bons amigos conversariam depois de muito tempo sem se ver.
Por fim acabou o almoço, e ele estava atrasado para uma audiência no foro municipal, e eu atrasado para uma aula de química que teria que dar em um cursinho pré-vestibular. Saímos do restaurante e nos despedimos calorosamente, mas não combinamos de nos encontrar novamente. Melhor deixar essas coisas por conta do acaso, não?
Ao chegar de noite em casa, tomei um banho, descansei e jantei com minha esposa. Quando estávamos arrumando a cozinha contei pra ela do ocorrido, em um relato longo e rebuscado, digno para um evento tão raro. Ela ouvia quieta, e sua única reação era franzir a testa esporadicamente. Depois de finda a narrativa ela olhou fundo dentro dos meus olhos, com um ar metade seríssimo e metade enternecido e disse:
-"Amor, não leva a mal o que eu vou te falar, mas esquizofrênica não tem graça, tem é tratamento, isso sim!!!"
Eram onze e meia, meio dia, no centro da cidade, na Rua dos Andradas com o sol à pino. E lá estava eu saindo andando tranquilamente pelo calçadão...
Obviamente não compreendi de primeira, tive de forçar os olhos umas três vezes, mas não tinha como negar, era eu. Um pouquinho diferente, uma coisa que contra, mas definitivamente era eu.
Era engraçado, eu e o outro eu que estava caminhando na rua tínhamos algumas diferenças nítidas, a começar pela barba feita, pelo terno cinza justíssimo e o topete alto e ridículo que ele estava usando. Em que Universo eu estaria vestindo aquilo?!
No fim, depois de hesitar um pouco decidi ir tratar com aquele estranho que era eu. Interpelei-o na rua logo de frente e cumprimentei ele, e de imediato nos abraçamos fortemente como amigos que não se viam a muito tempo. Com certeza ele também sabia que ele era eu, e vice e versa.
Por ser próximo a hora do almoço, ele decidiu me convidar para almoçar num restaurante chinês que havia nas proximidades. Chegamos, nos servimos e conversamos e rimos a refeição toda. Em nenhum momento conversamos sobre essa coisa da identidade e tudo mais, nem eu nem ele estávamos dispostos a começar esse tipo de confusão na hora do almoço. Conversamos sobre os planos, sobre nossos empregos, ele perguntou como andava minha vida de professor de colégio, e eu perguntei como andava sua vida de advogado. É claro que sabíamos as profissões uns dos outros.
Mas tínhamos muito em comum, é claro. Rimos ao perceber que nenhum de nós se serviu de carne vermelha nem nada com cebola, e que tínhamos pego praticamente porções idênticas de comida. Conversamos sobre os amigos do passado, sobre as maluquísses da nossa juventude, sobre nossas paixões e anseios, sobre as mulheres que amamos e deixamos de amar. Conversamos sobre futebol, sobre literatura, sobre filmes de comédia pastelão. Conversamos todo tipo de amenidade que bons amigos conversariam depois de muito tempo sem se ver.
Por fim acabou o almoço, e ele estava atrasado para uma audiência no foro municipal, e eu atrasado para uma aula de química que teria que dar em um cursinho pré-vestibular. Saímos do restaurante e nos despedimos calorosamente, mas não combinamos de nos encontrar novamente. Melhor deixar essas coisas por conta do acaso, não?
Ao chegar de noite em casa, tomei um banho, descansei e jantei com minha esposa. Quando estávamos arrumando a cozinha contei pra ela do ocorrido, em um relato longo e rebuscado, digno para um evento tão raro. Ela ouvia quieta, e sua única reação era franzir a testa esporadicamente. Depois de finda a narrativa ela olhou fundo dentro dos meus olhos, com um ar metade seríssimo e metade enternecido e disse:
-"Amor, não leva a mal o que eu vou te falar, mas esquizofrênica não tem graça, tem é tratamento, isso sim!!!"
sábado, 4 de outubro de 2014
Japamala (I à IV)
Cada
conta
conta
como
um conto
caustico
caído
na calçada.
Cada
conta
conta
como
o cântico
caótico
das casas
das capitais
Cada
conta
conta
como
o Mantra
e o pária
e a praia
e o pântano
Cada
conta
conta
como
o vulto
a caminhada
as dores do coração
e mente e alma.
....
sábado, 16 de agosto de 2014
Os Filhos das Elites
As lágrimas escorrem pela borda branca do rosto
Do canto do olho até a ponta do queixo
levando dissolvidas nelas mágoas e maquiagem borrada.
A gota da lágrima saiu de olhos
que miram distantes a linha do horizonte.
A gota da lágrima escorreu a caiu
do rosto triste escorado na sacada.
A gota da lágrima caiu longa e rápida
do alto do parapeito da cobertura
do prédio mais bonito da cidade.
As mãos atadas às máquinas de destruir
E o som fúnebre do ronco dos motores
E o murmúrio lúgubre das vidas sem amores.
Daqueles que não são nada além de atores
Interpretando debilmente estes horrores
e desonras e maldades e tristezas
Mantidas pelas ganâncias e avarezas
dos privilegiados cuja esperteza
não os faz ver o óbvio
e o inevitável.
Mas os filhos das elites não tem culpa.
Eles vivem os dramas de seus mundos fabricados
Eles vêem o mundo aos seus pés
dos altos pináculos de suas coberturas.
Por um breve instante eles pensam
que aquilo que todos falam
que o dinheiro não compra felicidade
era, sem sombra de dúvidas,
uma das mais gigantescas verdades.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Na Estrada Denovo, Parte I
Nada foge da normalidade.
Reduzir a velocidade dos sentimentos
só pra ver exposta tua fragilidade.
Contra sorte não tem preventivo.
Comprei convencional,
viajei de executivo.
Andar nas ruas não é nada.
Bonito mesmo é som do mar
e ver o sol nascer na estrada.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
03:53
Nada mais efêmero e transitório que a nossa ilusão sobre o que é e o que seria o hipotético "fundo do poço".
O fundo do poço não tem lugar, o poço não existe, e essa metáfora toda soa bem errada.
Se definirmos o "fundo do poço" como um adiantamento na nossa inevitável marcha de nascimento-convalescença-envelhecimento-morte, bom, então o tal do fundo do poço continua sendo bem evitável.
Mas e se definirmos como "fundo do poço" a quebra de algumas condições psicológicas (ou psicossomáticas, dependendo do caso), quebras que levariam a um adiantamento do perecimento do corpo? Bom, daí nos expandimos muito mais os horizontes e criamos um espectro muito mais amplo sobre o tal do "fundo do poço".
Ah, sejamos existencialistas por um instante e vamos parar com essa história toda. Vamos estabelecer o "fundo do poço" no nosso fim das atividades metabólicas, no fim das nossas efemérides heroicas e do fim de nossa vida carnal como um todo. Morrer é a hipótese de "fundo do poço" mais simples e abrangente, o resto é tudo bobagem.
E, bem, convenhamos, viver vivão e são das idéias e seguir firme e tranquilo até a velhice é um negócio que a nossa espécie está fazendo com maestria nesses últimos séculos. Sim, ainda tem muito o que melhorar, mas essa é uma discussão sobre nós enquanto indivíduos e não de nós enquanto espécie. Essa é uma discussão sobre como espantar os fantasmas destes possíveis "fundos do poço".
O fundo do poço não tem lugar, o poço não existe, e essa metáfora toda soa bem errada.
Se definirmos o "fundo do poço" como um adiantamento na nossa inevitável marcha de nascimento-convalescença-envelhecimento-morte, bom, então o tal do fundo do poço continua sendo bem evitável.
Mas e se definirmos como "fundo do poço" a quebra de algumas condições psicológicas (ou psicossomáticas, dependendo do caso), quebras que levariam a um adiantamento do perecimento do corpo? Bom, daí nos expandimos muito mais os horizontes e criamos um espectro muito mais amplo sobre o tal do "fundo do poço".
Ah, sejamos existencialistas por um instante e vamos parar com essa história toda. Vamos estabelecer o "fundo do poço" no nosso fim das atividades metabólicas, no fim das nossas efemérides heroicas e do fim de nossa vida carnal como um todo. Morrer é a hipótese de "fundo do poço" mais simples e abrangente, o resto é tudo bobagem.
E, bem, convenhamos, viver vivão e são das idéias e seguir firme e tranquilo até a velhice é um negócio que a nossa espécie está fazendo com maestria nesses últimos séculos. Sim, ainda tem muito o que melhorar, mas essa é uma discussão sobre nós enquanto indivíduos e não de nós enquanto espécie. Essa é uma discussão sobre como espantar os fantasmas destes possíveis "fundos do poço".
FUNDO DO POÇO
PROFUNDO
DOPOÇO
PROTEJO
TENTO
PREFIRO
REFIRO
SUSPIRO
SUSTENTO
SUSPENDO
LAPIDO
SER BRUTO
.
SOU FUNDO
NO
TUDO
QUE
POSSO.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Inemancipável
Mensch:
Chore pela tua solidão,
Cante para tua redenção.
Interdependetemente aflito
Ao perceber a natureza do conflito.
As tristezas fecham o arco
Individualidade é ilusão.
Buscamos aprovação
e estamos todos no mesmo barco.
Maschine:
Homo sapiens
Homo ludens
Homo electrum
Do machado a enxada
Do carinho ao moinho
Da espada a palavra
Dos seixos aos códigos
Dos espelhos ao espectros.
Sendo assim impertinente
Só digo estamos cada vez mais dependentes
Em absolutamente todos os aspectos.
Abschluss:
Humanos dependem de humanos e todos os humanos dependem de ferramentas. Poucos são os humanos que tem pleno domínio das ferramentas. Nenhum é o humano que não depende de outros humanos. E a gente não tem o menor controle sobre isso. A individualidade e a emancipação completa jamais se darão pela supressão do uso de ferramentas e pela exclusão do convívio social.
Chore pela tua solidão,
Cante para tua redenção.
Interdependetemente aflito
Ao perceber a natureza do conflito.
As tristezas fecham o arco
Individualidade é ilusão.
Buscamos aprovação
e estamos todos no mesmo barco.
Maschine:
Homo sapiens
Homo ludens
Homo electrum
Do machado a enxada
Do carinho ao moinho
Da espada a palavra
Dos seixos aos códigos
Dos espelhos ao espectros.
Sendo assim impertinente
Só digo estamos cada vez mais dependentes
Em absolutamente todos os aspectos.
Abschluss:
Humanos dependem de humanos e todos os humanos dependem de ferramentas. Poucos são os humanos que tem pleno domínio das ferramentas. Nenhum é o humano que não depende de outros humanos. E a gente não tem o menor controle sobre isso. A individualidade e a emancipação completa jamais se darão pela supressão do uso de ferramentas e pela exclusão do convívio social.
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