quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um Homem Melhor



Deus queira o Inferno.
Deus queira o Inferno aos que não aprendem.
O Inferno pertence às pedras,
Às almas de pedras,
aos homens de pedra,
às placas tectônicas de ideias.

Deus queira o Inferno
a todas as ideia nocivas 
e seus reprodutores.
Ao Inferno as ideias lascivas
de vício e vicissitude e tolerância

Deus mande ao Inferno minha ânsia.

Mande ao Inferno minha ânsia
meu desespero e ganância.
Minha inveja e cobiça e intolerância.

Deus queira que eu seja um homem melhor.

Nas medidas em que um homem pode ser melhor.

Nenhum homem jamais será melhor.

Nenhum homem foi criado pra ser bom.

Mas tenho fé eu.
Tenho fé eu que o aprendizado é eterno
Que o Sutra do Diamante
no fundo no fundo
é uma Surra de Dinamite
no centro das ideias externas impostas.

O Mundo é mal e é ruim.
E somos parte desse veneno.
O Mundo tem começo e fim.
Lavo meu rosto com benzeno.

O Mundo é belo e louco
E eu sou parte deste Sol.
Que eu melhore de pouco eu pouco
que eu seja alguém melhor que já sou.

E sabe lá o que Deus quer
Não me interessa Deus e seus medos
Não me interessa o que Deus ser
Só quero demolir a base dos meus erros.

Queira eu que eu durma
acorde
trabalhe
aprenda
viva
respire
ame
cresça
coma
beba
viaje
veja
sinta
toque
cure.

Queira eu em minha lápide
A bela estátua
de uma caveira
coroada com a coroa do Universo.

Queira que eu morra velho
mas bem velho,
Mas bem velho mesmo.
Com duzentos anos
trezentos anos
dois mil anos.

Que eu não morra antes de ser um homem melhor
Nas medidas que um homem pode ser...

sábado, 26 de setembro de 2015

A Seção Maldita




Aumente as distorções,
corte os cabos e queime as pontes
essa é a seção maldita,
a que começa depois da meia-noite.

Chame a verve de todos os medos,
os fungos cobrem os corpos
o sangue escorre dos ferimentos
o vento frio é um açoite.
Essa é a seção maldita
que começa depois da meia-noite.

Teus gritos não serão ouvidos
E os dentes criam as cicatrizes
no coração dos atores e atrizes
Teu golpes não serão sentidos.
Pois já passo da meia-noite
e esta é a seção maldita.

O véu negro da noite dos vermes
A alma branca do eterno dos ossos
Idolatre as estatuas inertes
e as estrelas e buracos negros.
Hoje é Lua Cheia à meia-noite
e esta é a seção maldita.

E deixam de soar os tambores
e tudo volta de leve ao normal.
Isso é a ilusão dos teus temores
Que venha o coro virginal
das ideias puras do fundo da alma
que retomam a vida e a calma.

Nada era real e nada era mentira
Acaba o som, ascende a luz.
Passou da meia-noite
e está acaba a seção maldita.


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Teu Outro



Sempre há uma janela
um fundo de cama
uma fresta de porta
uma saída à sorrelfa.

Não me importo nem um pouco
em ser o teu segundo homem.
O teu Outro que vem e some
que te ama e segue a viagem.

Teu homem não é nada pro teu todo,
não mais que uma sombra de ontem.
E eu não sou mais que uns quilos de carne,
um nome, e um coração selvagem.

E esse coração selvagem rasga
e dilacera os pulmões e as costelas
ardendo de sanha e fúria
rugindo a força das eras
e ansiando a eternidade que sempre passa.

Não te peço dê opinião alguma
e nem que dê ouvidos a mim, em suma.
Siga com teu homem, ele é a segurança
o leito oceânico que segura a tua âncora.

Só não te apequene, e se lembre
de aceitar o desafio da vida.
Tu ama e anseia a liberdade
e homem algum será teu guia.

Sou teu Outro, e sigo assim sendo
pois te amo não me arrependo.

Abra as asas, aceite o mundo
e se aceite por amar outro homem
e saiba que isso não é insensatez,
pois a gente sempre espera na vida
que alguém venha
e foda tudo de uma vez.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

Onze E Pouco Da Manhã



                ----Para J.D.A.-----

O que eu chamo de amor pode
não ser o que os outros chamam.

O amor sempre se manifestou como algo
de narcótico
de erótico
de colérico
de quimérico
de dramático.

Suba ao palco
interprete o ático
e seja a protagonista da minha vida.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma E Tantos Da Manhã




----Para J.D.A.----

                                           Teu cheiro não sai de meu nariz
                                           Teu rosto não sai de minha retina
                                           Tua voz não sai dos meus ouvidos.

                                           O ar que vem ao longe vem forte
                                           e me empurra e me leva e me esconde
                                           distante barometria simbionte
                                           que desfaz a sanidade com um toque.

                                           O que alumia também cria sombra
                                           que reverbera a onda e a refrata
                                           levando consigo o imagético do Nada
                                           e dilatando a pupila como afronta.

                                           O volume todo virado no máximo
                                           num cérebro elétrico e ligado e iônico
                                           carregando em cada dendrito e axônio
                                           a forte encefalite do ruído estático

                                           Teu cheiro não sai de meu nariz
                                           Teu rosto não sai de minha retina
                                           Tua voz não sai dos meus ouvidos.
                                         

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Pior Ser Vivo



O pior dos insones é aquele que não quer dormir.
O pior dos hipócritas é aquele que não quer mentir.
O pior dos céticos é aquele que não quer sentir.

O pior dos normais
é o que finge que é louco,
e o pior dos loucos
é o que finge que é normal.

E o tempo passa aos poucos,
gota à gota a caminho do desespero,
condenando ao degredo todo aquele
que não sabe aceitar o seu destino.

O pior sonhador é aquele que não quer dormir.
O pior religioso é aquele que não quer mentir.
O pior niilista é aquele que não quer sentir.


domingo, 5 de julho de 2015

Nosso Amor Para Ser Admirado




O amor do taxidermista
consiste em pegar
o que já está morto
e dar forma, e jeito e imagem
em um trabalho lógico e criativo
para fazer com que o cadáver
ainda pareça vivo.

O taxidermista usa química
usa proficiência
usa paciência.
Ignora o odor e a aparência
e tece sua indolor ciência.
Doando sua vida de bicho vivo
para sua obra, no bicho morto.

Cada qual com seus heróis
o bom taxidermista não recria
pura e simplesmente a morfologia.
O bom mesmo é aquele
que recria cenas, bandos
caçadas, famílias, flertes.
Aquele que imagina vida além do corpo.

E existe no mundo gente
que ama como o taxidermista.
Quer o amor morto, mas vivo.
Quer o amor estático no canto
do museu das memórias.
Imitando o que ele foi
e o que ele não foi.

Ama como quem ama uma fotografia
como que analisa uma imagem
uma obra de arte inerte.
Que desejam morto o bicho vivo dentro do peito,
para que ele esteja lá sempre
belo, perfeito, quimicamente tratado,
pronto para ser eternamente admirado.

Provavelmente todos nós
amamos como o taxidermista.