segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Suspiros pelas Ruas

Triste anda eu. Eu triste de mochila nas costas com frio de noite em Curitiba. No concreto limpo da Avenida Iguaçu, bairro Água Verde. Estava triste.
Mas me lembrei dum sábio japonês, que andava pelas ruas de Maringá. Lembro que um dos seus clichês era abaixar a cabeça, passar a mão nos olhos fechados de oriental, soltar um longo suspiro e falar um definitivo "Ai ai, é a vida...". Um dia ele fez isso no asfalto artificial e novo da Avenida Tiradentes, Zona 1.
Lembre dessa cena e ri. Aceitei minha condição, percebi o quão estúpido eu tava sento e plagiei a atitude do sábio. Olhei pra cima enquanto o vento noturno gelado de Curitiba jogava meu cabelo pra trás e falei a definitiva frase. "Ai ai, é a vida..!"

Devolta rotina normal. Ando perdido nas ruas estreitas de Florianópolis. O sol aparece mais forte, o inverno está acabando. Descendo uma lomba em meio a obras públicas abaixei a cabeça, senti o fedor da maresia e da multidão e suspirei. "Ai ai, é a vida...".

Isso foi na Rua Jerônimo Coelho
no Centro

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Decadência

Esses ultimo meses tem me feito mal, muito mal.
Nunca fui muito de me valorizar. Nunca dei crédito as teorias da auto-estima, sempre acreditei na minha insignificância em meio aos homens e em meio ao Mundo e a sociedade. Meus trunfos se valoravam em uma meia duzia de conhecimentos que eu buscava incessantemente. Ainda busco, mas não sei mais falar.
Eu não me comunico mais como antes. Agora vem a vergonha, o medo da insignificância, a falta total de dialéctica e articulação frasal. Citações perdidas, gritos de desespero, tiques vocais repetidos incessantemente, vícios de linguagem, silêncios inoportunos. 
Os outros sempre tem mais a falar, eu sempre tenho mais é de ouvir. Aceitar as ideias alheias, achar coisas boas até nas mais podres latas de lixo. 
Não sei mais falar pela boca. Minha língua, laringe e garganta arranham, meu cérebro pena pra encontrar as palavras certas na hora certa, meus pulmões sufocam com as batidas sangradas de um coração coberto de cicatrizes e silêncios sufocados. E isso que ele ainda está bem jovem...
Só me resta falar pelos dedos. Pelas letras. Um amigo meu uma vez me disse que eu deveria me assumir escritor. Mas eu não sou escritor, escrevo para desabafar. Escrevo pra falar o que minha boca não consegue falar, por medo, vergonha ou preservação da ordem vigente. 
Minha decadência se reflete em mim. Acordo tarde, estou fedendo, ando pela casa morto coberto em moletons, nem sei mais como que está meu cabelo, só sei que está grande...
Todos meus amigos estão pareados, correspondidamente apaixonados. Todos belamente acompanhados na Praça Oswaldo Cruz, na Praça do Japão. Ele junto dela, ele junto dela, ela junta daquele, e eu... Eu lá. Eu sobro. Eu sempre. Todos juntos e felizes e eu parado, escorado. Meus cabelos enroscam nos galhos das arvores. Não tenho força pra preservar nem eu mesmo.
Como eu jovem posso me sentir tão cansado?
Algum sábio chinês falou que depois do ápice só se segue a decadência...

Céus, como se explica uma decadência que nunca teve um ápice...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Feridas e Caminhos

Sexta-feira. Ultimo dia de aula antes do recesso de Inverno. Hoje estreia o melhor filme do ano.
Lá pelas quatro horas saio de casa. Boina na cabeça, jaqueta e sapato social. Sim, hoje era um acontecimento importante.
Antes disso passei no colégio devolta. Tinha uma duvida que precisava ser sanada. Bem, digamos que a duvida foi devidamente respondida... Agora duas semanas de consciência tranquila podiam se apresentar!
Saio na rua. Florianópolis, oh Florianópolis. Ilha lindíssima, com toques bizarros e nome de ditador!
Chego na artéria coronária da cidade, a monstruosa Avenida Beira-Mar. O filme do On the Road ia passar na estreia somente num shopping lá longe, me avisaram q era no final da Beira-Mar...
Fui caminhando reto. Semana que vem vou pra Curitiba, preciso aquecer minhas pernas.
Fui caminhando lento. Vendo toda a extensão da Beira-Mar. As praças, as velhas caminhando, as não-tão-velhas querendo perder as pelancas, os casais. Fim de tarde de sexta-feira, até que tinha pouca gente lá. O panorama da Baia Norte, os morros, o mar, as praças. O fim-de-tarde-quase-noite...
Passado um tempo eu passo por um mangue na margem da avenida. Como que eu nunca vi aquele mangue gigante ali??? Olinda? Recife? Que nada, tinha um mangue caricatamente pernambucano numa das zonas mais movimentadas de Florianópolis e eu nunca percebi!!!
Anoitece, ficou frio. Passei o terminal do Trindade. Acho que nunca caminhei tanto ininterruptamente em trecho urbano... Apesar de estar de sapato social, mas sinto meus pés doerem.
Chego finalmente no shopping, compro meus ingressos. Sento num banco depois pra ver como meu pés estão. Contagem: duas bolhas, uma no garrão esquerdo e outra num dos dedos do direito. Até que foi pouca coisa...
Fui o primeiro a entrar na sala de cinema. Ir pro cinema sozinho é uma coisa tão estranha e ruim... (ainda mais com uma pessoa na cabeça)
O filme começou. Não vou aqui fazer critica nenhuma mais completa. Só digo que, apesar das falhas e da omissão de certas partes, ficou um filme bem fidedigno ao livro!
Termina o filme. Saio da sala de cinema e vou refletir na rua...
Acho que por isso nada comigo da certo. As coisas não dão certo porque elas não terminam. Acho que não gosto do ponto A ou do ponto B, mas sim de ir do ponto A ao ponto B sem nunca chegar no ponto B...
Nossa, tou pirando errado. Nessas horas que o Japa faz falta! Alguém pirando errado e vendo filmes com pira errada! O Japa é o unico beatnik puro atual que eu conheço!
Frio na rua, cabeça cheia. Meu pai chega pra me dar carona no heroico Voyage azul-tampa-de-panela.

E as luzes da cidade queimam, queimam como candelabros romanos durante a noite!

terça-feira, 19 de junho de 2012

Apagado

De que adianta?
Alguns bons anos de existência respirante na Terra e nada. Não apto a atividades que requerem envolvimento profundo, dedicação ou sangue frio relativo.
Tu vai se feliz com ele! Sim, sim, sim. Vocês dois formam um belo casal! Mentiras pra mim mesmo, mim mesmo, mim mesmo. Uma vez foi assim. Duas vezes foram assim. Agora, meus estimados irmãos, a terceira...
Sempre se há outra opção. O guri é imaturo, não tem sangue nos olhos, sangue nas guelras, sangue nas veias. O guri não reage quando agredido. O guri fica culpado por querer as coisas. Como alguém que não se valoriza vai me valorizar?

Apagado, inerte, bosta n'água. Minhas feridas não amarelaram, não vão sarar. Estou subindo as paredes e gritando às brisas da maresia no meio da rua!

Não nasci pra ver o mundo pegar fogo...

Ela vai ficar bem com ele. Nunca vou fazer bem a uma mulher mesmo...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Prova de Literatura

Era uma manhã de inverno em Desterro. Aula, normal. Não dá pra mudar o fato de eu ser um moleque fracassado de ensino médio...
Penúltimo período da aula da manhã, professora de literatura ia entregar a provas corrigidas.
Lembrei da prova. Caia coisas sobre Modernismo de 22, mais especificamente uma análise do livro "Amar, Verbo Intransitivo" do genial Mário de Andrade (porque ela não cobrou Macunaíma, porque?!?!). A segunda questão discursiva pedia pra explicar o porque do nome do livro. Amar era verbo transitivo... E eu ia saber??? Em todos esses anos de colégio as aulas de gramática entraram por um ouvido e saíram pelo outro com uma destreza tremenda!
Se eu tentasse responder sério e enrolando, eu errava. Se eu deixasse em branco, eu errava. Resolvi ser criativo!

Professora entrega a prova, li denovo minha resposta genial!:
-"Oh, amores e gramática, duas imensuráveis incógnitas na minha cabeça!"
Do lado dela tinha um número zero bem simples escrito. Mas a professora, uma baixinha gorda, extremamente inteligente e lá com seus 35 para 40 anos, deixou uma notinha de rodapé na minha resposta!
-"Poético!"

Termina a aula, ia filar boia em casa. Saí na rua, estava menos frio, coloquei o MP-Coiso nos ouvidos. Fiquei andando ouvindo Vaccines.

I'LL WATCH YOU RISE ON MY BACK FROM THE GROUND!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Porque Desisti de Você

Desisti, essa é a palavra. Sangue de barata. Ratos, baratas, urubus e outros zoomorfismos da ideia de covardia. Pela falta de coragem o urubu come carniça, já diriam os velhos!
Um ano de solidão. Vivi a embriaguez daninha e o sonho de febre, provações ridículas para alguém normal, mas pesadíssimas para um guri de ensino médio. E eu te conheci depois da estrada!
Um ano sem urbes amadas. Volto para Curitiba num feriado pra relembrar os velhos tempos. E te conheci...
Voltei pro meu exílio, meu desterro, com tu na memória! Como num filme ruim, mantive contato contigo, e tudo parecia ser promissor! Sonho de febre! Por duas semanas, hoje desisti...
Neste exílios atenuados criei uma ideia errada. Larguei mão dos amores vãos. Não pergunte a mim sobre histórias de amor, é inócuo, improfícuo em suma, não sou capaz de amar mulher alguma e provavelmente não há mulher capaz de amar-me, Augusto dos Anjos falou alguma coisa desse gênero... Achei que a soedade me traria sobriedade, não trouxe. Mas me acostumei com essa ideia, fiquei relativamente confortável. Só um motivo me faria sair dessa zona de conforto maluca...
Em horas de pira criei uma imagem mental. Uma guria inteligentíssima, uma paisagem de inverno curitibana. Ela era sossegada, leve, sem pressões malucas e protecionistas de um relacionamento-padrão, só a presença e a companhia bastaria. Estaríamos nós dois sentados (Praça do Japão, provavelmente) falando sobre arte, desenhos, música. Fleet Foxes!!
Daí te encontrei, e vi em ti a personificação dessa imagem. Leve, doce, simpatiquíssima. Nossos planos rimavam, rima rica ainda! Ai, que erro. Me vi preso de novo em musas laureadas e platonismos adolescentes... A guria sutil-artista-que-escuta-Fleet-Foxes...
Mas o inesperado! Um amigo meu te ama! Daí me vi numa competição. Me senti mal por isso, profundamente mal. Odiaria entrar numa justa pela mão de uma donzela (exemplo ridículo)... Ainda mais se essa justa for com um grande amigo meu...
A guria que escutaria Fleet Foxes comigo num dia frio não existe. A guria que dividiria o apartamento poleiro-urbano comigo não existe. A namorada não-psicótica e não-ciumenta
Desisti, esse é o ponto. Não vai ser de um dia pro outro que o Urubu vai virar Leão! Mais fácil seguir minha vida quieto... Tou em outra cidade mesmo... Ver os dois felizes juntos vai ser bom... Vou ficar feliz com ela feliz... Assim eu não atrapalho ninguém... Isso tudo são mentiras, mas acalmam meu coração.
Colocar uma razão moral, assim pareço até um asceta... Buscar purificação pela dor! Tou cuspindo na cara do Nitchê mesmo! Essa é a situação mesmo...
O Urubu continua sentado no poleiro vendo a vida dos outros acontecer. Quando se sente sozinho, o Urubu desce pra gritar no ouvido de alguém. O Urubu nunca vai ser Leão!

En temps de guerre est le vautour de poulet...