segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Bloqueio Criativo



Nada sai de inovador
Nada que valha a pena
Vários textos na gaveta,
Ametábolos 
em matéria de esplendor...

Mas também, o que que eu espero?
Virar um Eddie Vedder?
Andar sob um Hard Sun que não me atinge?
Ou, por falta de esmero,
virar um Paulo Leminski?

Ídolos, símbolos 
Ideais; Improfícuos 

O que eu tou fazendo?
Nada disso é talento
Nada disso é novidade
Sou só um piá de dezessete
Escrevendo na internet
mas com a cabeça em Marte.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Três Segundos

I
Quando era pequeno, Zezinho achava que tinha o poder de controlar o vento. Em finais de tarde cheios de ventania ele ia sozinho pro pátio de casa e ficava balançando os braços de um lado para o outro, crente de que era ele que estava regendo os caminhos das correntes de ar. Zezinho via os pássaros, os insetos e as nuvens e via nelas os guardiões daquele poderoso elemento, e ele sabia que cedo ou tarde ele estaria se juntando a eles, sendo mais um redentor dos grandes rios de ar que corriam no Céu. As vezes quando estava no pátio, ele gritava uma palavra de ordem, movia os braços, e uma forte lufada de vento obedecia sua voz, as arvores se dobravam, a poeira levantava e seu cabelo era jogado pra frente, e nesse momento Zezinho reafirmava sua certeza. Ele tinha o poder de controlar o vento.

II
Zezinho tinha esse apelido pois sempre tivera vergonha de seu nome. Muitas pessoas julgavam simplesmente que seu nome deveria ser José, Josué ou algo do gênero, mas não. O pai de Zezinho queria que ele tivesse um nome diferente, único, e resolveu por-lhe um nome de divindade grega. O pai de Zezinho, homem simples do povo, não sabia muito sobre mitologia grega, por isso pôs o primeiro nome que encontrou e que julgou soar bem, e nome era Zéfiro. 
 
III
Por volta dos onze anos Zezinho descobriu e entendeu o porquê de seu nome. Era nome do deus do vento oeste! Era nome de um deus, de um deus dos ventos!!! Desde aquele dia Zezinho passou a preferir que lhe chamassem pelo nome de batismo, por mais heterodoxo que ele soasse aos ouvidos alheios. 

IV
Quando já começava a sombrear o buço, Zé resolveu aprender a tocar acordeon e cantar. Uma vez ele havia tocado no acordeon de um parente, e ficou impressionado com a quantidade de ar que aquele instrumento gigantesco movimentava. O fole abrindo e fechando e o vento escapando de cada botão com uma sonoridade e vibração diferente! Zé estava decidido, não era mais uma criança. Sabia que o vento não o obedecia como antes, aprendera no colégio que o que ele julgava ser o seu poder nada mais era do que um fenômeno físico, tinha o nome feio de corrente de convecção. Mas essa descoberta não abatera Zéfiro, e ele estava decidido em domar os ventos por meio da música e de seus pulmões.

V
Zé já estava velho, bem mais velho. Já tinha terminado o colégio, já tinha se formado na Universidade. Seu tempo na faculdade tinha sido proveitoso, estudante de física de fluidos, enfase em estudos atmosféricos. Se formou meteorologista, nada mais natural! Ele sabia que ele trabalharia muito mais com computadores do que com o clima em si. Mas ele não precisava do vento das altas camadas da atmosfera, o vento do seu acordeon já bastava. 

VI
Pobre Zé, a idade não tinha sido generosa com ele. Zé era um senhor de meia-idade agora, um senhor e meia-idade sozinho e sem família. Tinha dedicado sua vida toda a um projeto de satélite que não tinha dado certo. Faziam já alguns anos que não tocava acordeon, faziam alguns anos que ele não cantava, faziam alguns anos que ele não sentia prazer nem em o vento soprar os seus cabelos.
Um dia Zé pegou seu carro, encheu o tanque e dirigiu quilômetros e quilômetros até chegar numa praia que tinha conhecido na época da faculdade, lembrava-se de que havia uma trilha para o topo de um penhasco onde soprava o vento mais poderoso que ele já havia sentido!
Quando Zé chegou na entrada do parque natural, desceu do carro, pegou sua mochila e seguiu pela trilha descampada que corria ao lado do penhasco. Era frio, era inverno, estava nublado, e ventava! Ventava forte, do mar para o penhasco, e Zéfiro estava fascinado. O vento lá era forte, forte e indomável, nem mesmo o pequeno Zezinho do pátio teria força para controlar aquele vento! (~~~A propulsão perfeita~~~). Zéfiro continuou andando sozinho pela trilha até chegar em uma pequena dobra nas rochas do precipício, e lá espichou o pescoço para olhar o mar arrebentando nas pedras logo abaixo. 
No que se abaixou, Zéfiro viu um recuo nas pedras. (~~~Um espaço para manobrar~~~). Olhou fixamente para baixo. Naquele momento ele percebeu que tudo o que vivera era mentira, ele não era humano, ele estudava números e notas musicais para se disfarçar de humano. Ele não era humano afinal de contas, ele era um Deus, um Deus do Vento!! Era tão guardião dos ares quanto as nuvens e os pássaros!!! E era chegada a hora, era chegada a hora de ele se juntar ao seu elemento de origem!!!

VII
Zéfiro foi o homem mais feliz do mundo durante os três segundos em que voou como uma coluna de ar descendente.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Neve em Porto Alegre

Esse ano nevará em Porto Alegre. E não será uma neve qualquer, nevará ininterruptamente por sete dias e sete noites.
Nos primeiros dias a população da cidade estará maravilhada, não crendo que depois de tantas décadas voltaria a nevar em Porto Alegre. A neve vai começará já pesada, em um domingo, e os pais vão se encher de coragem e agasalhos e levar seus filhos para brincar na neve, como em um desenho americano. A RBS fará reportagens especiais, e a capa da Zero Hora não poderá ser outra. A neve será o principal assunto da cidade.
O problema começará quando a neve continuar a cair e não parar. Por conta do frio e da escuridão muitos colégios cancelarão as aulas. Começarão a ser noticiados acidentes de trânsito na Goethe, na Perimetral, na Ipiranga, na Bento, na Beira-Rio e todos os motivos serão os mesmos, derrapagem na pista congelada. Nas grandes mansões e nos luxuosos apartamentos da Bela Vista o fenômeno climático será confortavelmente aproveitado, os ricos adorarão tomar seu vinho sentados à beira do aquecedor. Nos casebres da Vila Cruzeiro e da Vila Humaitá os trabalhadores não verão a neve da mesma forma, muito menos os mendigos que se aglomerarão embaixo do Viaduto da Borges.
No Jornal do Almoço o Lazier Martins fará uma crítica indignada ao Prefeito, "onde já se viu essa neve toda e as autoridades não fazerem nada?". Onde estariam os caminhões jogando sal nas avenidas para os montes de neve derreterem, onde estariam as políticas assistencialistas aos desabrigados? O Prefeito não saberá o que fazer, e a neve não parará.
Os jogos do Campeonato brasileiro serão jogados com uma bola laranja para que os jogadores possam vê-la, e a CBF pensará em boicotar jogos em Porto Alegre enquanto durasse a nevasca, a esmagadora maioria dos atletas jamais tinha jogado em tais condições.
A água para o chimarrão vai demorar a esquentar, o pão demorará a crescer nas padarias, a comida demorará a ficar pronta. E a neve não parará de cair. O Hospital de Clínicas atenderá centenas de casos de tuberculose, hipotermia, infecções respiratórias e todos estes males que o frio trás consigo. As extensões gramadas de Belém Velho estarão brancas e brancas, e os cimos dos morros estarão brancos de neve. Os alunos e pesquisadores da UFRGS estarão estudando intrigados o fenômeno, e nos corredores acinzentados do Departamento de Ecologia já começam a ser estudados os possíveis efeitos que toda essa neve causará ao ecossistema do entorno. O espelho d'água da Redenção estará congelado, e vários prédios históricos serão interditados, pois nenhum deles estava preparado para o peso da neve em seus telhados.
Ninguém mais veria a neve com alegria e graça, agora ela seria um incomodo. Um dos incômodos mais sérios que a cidade já vira.
Mário Quintana olhando tudo do Céu escreverá um pequeno poema sobre toda a situação e mandará um anjo pichar esse poema na Prefeitura. Os colégios já começarão a planejar aulas nos sábados para recuperar os dias perdidos. As empresas calculam os prejuízos que a neve já causou. E os albergues não saberão o que fazer com tantos desabrigados procurando um teto. E o pior de tudo é que ninguém saberá quando a neve vai parar. Se é que um dia ela iria parar...
Mas ao final da sétima noite de neve descerá do céu um anjo, que pichará a Usina do Gasômetro, dizendo que a neve pararia de manhã, que sairia Sol, e que as quatro horas da tarde São Pedro apareceria dentro da Catedral Metropolitana para explicar o ocorrido.

Toda Porto Alegre aparecerá no Centro, será tanta gente que São Pedro optará por sair da Catedral e falar com a população no meio da Praça da Matriz mesmo. Com uma voz forte que só os anjos e santos tem, São Pedro dirá a população que toda aquela neve não teve motivo algum. São Pedro dirá que estava entediado, e que a décadas nada de diferente acontecia no Delta do Jacuí. E subirá aos céus deixando uma multidão em dúvida e um Sol forte pra agradar a todos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Mil Quinhentos e Trinta e Quatro Quilômetros

V
No calçadão de pedras
E com névoa de madrugada
Fecham-se as janelas.

IV-VI
Durante a estrada você olha
Na encosta do morro
Araucaria angustifolia. 

III-VII
Com vento na cara
Os dois cruzam a ponte
Que liga nada ao nada.

II-VIII
A cento e dez por hora
Até um sopro do vento
Pode jogar o carro fora.

I-IX
Pare, olhe e lembre:
As ruas de Porto Alegre
São as mesma de sempre

sábado, 29 de junho de 2013

Ela Não Existe

Nunca acreditei na beleza.
Não interprete isso como atração ao feio e ao anti-estético, longe disso. Eu nunca acreditei na beleza justamente por eu achar que ela não existe.
Lembro de que quando eu era pequeno eu sentava no topo do escorregador e ficava olhando pras nuvens rosadas do final de tarde. Eu achava aquilo tão bonito, mas tão bonito, que eu não conseguia acreditar que era real. Para mim aquilo era uma tela, um quadro, um desenho, algo saído de alguma abstração humana e materializado num evento atmosférico.
Até hoje, quando vejo alguma garota muito bonita falo pra mim mesmo: "Essa guria não existe...".
Pra mim a beleza sempre foi algo que estava encarcerado nas células do tecido cerebral, a beleza sempre foi algo que não podia sair do Mundo Inteligível e cair no Mundo Concreto. O Mundo Concreto não costuma ter beleza ou feiura, o Mundo Concreto tem trabalho e estudo e força e dor e rotina e Vida e Morte.
O Mundo Concreto é o mundo dos nossos irmãos símios.
Continuo não crendo na beleza. Continuo vasculhando atentamente nas belas paisagens e nas belas visões algo de feio para me lembrar que aquilo é real! Budistas dirão que isso pode ser um reflexo da minha aversão às ilusões dos sentidos, e eu em períodos de budismo achei que era isso mesmo. Mas eu duvido. Acho que nossos irmãos símios não tinham budismo e a "Realidade Ilusória Dos Sentidos" era a única realidade que eles tinham. E é a única realidade que temos.

Estou tentando crer na beleza, estou tentando aceitar que o Samsara pode ser Nirvana, que a Vida/Morte podem ser Eternas, que as coisas efêmeras devem ser aproveitadas. Eu sei que o sabor da comida é efêmero, sei que o torpor do vinho é efêmero, sei que as bergamotas da bergamoteira são efêmeras, que os cachorros da rua são efêmeros e de que tudo que é perceptível pelos sentidos é efêmero...
Eu sei disso, eu tenho plena consciência disso.
Mas isso são ideias encarceradas no meu cérebro, o Mundo Dos Símios é diferente. E eu quero viver o Mundo Dos Símios.
A Vida é grande demais pra gastar o tempo da juventude refletindo no que ocorrerá depois que minha saúde fraquejar. E, quando já tiver aceito o Mundo Concreto como ele é, só encher os pulmões de ar já vai ser um prazer indescritível!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Feedback


Tu me olha por cima
enquanto eu caio.
Tu me cobra um amor
que eu não tenho.
Tu diz para eu não ir
mas eu venho.
Tu diz pra eu sair
mas eu não saio.

Eu só saio
Quando tu disser o quanto eu valho.
Eu só saio
Quando tu enumerar meus atos falhos.

E passado isso,
(o teu desabafo aquilino),
poderei voltar para casa,
deitar, e dormir tranquilo.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Jápeto e Climene


-No gramado de um campus universitário de Porto Alegre no final do outono um jovem casal está abraçado e tranquilo, até que o silêncio é interrompido por um deles...-:

-Ai, ai..., disse ela após um longo suspiro.
-O que?
-Não, nada, esquece...
-Guria, eu conheço esses "aí,ais"!
-Não é nada, já disse. (ela ri de leve)
-É sim, é sim! Esse é um daqueles "ai, ais" que vem do fundo da alma. Esses "ai, ais" são os que nos aproximam de Atlas!
-Hã? 
-Atlas! O semi-titã da mitologia grega, que carregava o Mundo nas costas! Olha, pensa, nós também carregamos nosso Mundo nas costas, só que nós carregamos a ideia de existir (que é tão grande quanto o Mundo...). Atlas devia em alguma hora se sentir cansado e desejar não carregar o Mundo nas costas, e nesse momento ele deveria soltar algum gemido de lamento e tentar acomodar melhor o peso nas costas. Esse teu "ai, ai" é basicamente o teu Atlas lamuriando e tentando acomodar melhor o Mundo dentro de ti!
-Nossa, faz sentido isso! 

-Retoma-se o silêncio, até que alguns minutos depois ele é quebrado, desta vez pelo rapaz, que após um longo suspiro disse, Ai, ai...-