sábado, 16 de agosto de 2014

Os Filhos das Elites

As lágrimas escorrem pela borda branca do rosto
Do canto do olho até a ponta do queixo
levando dissolvidas nelas mágoas e maquiagem borrada.
A gota da lágrima saiu de olhos
que miram distantes a linha do horizonte.
A gota da lágrima escorreu a caiu
do rosto triste escorado na sacada.
A gota da lágrima caiu longa e rápida
do alto do parapeito da cobertura
do prédio mais bonito da cidade.

As cabeças conectadas às máquinas de distrair
As mãos atadas às máquinas de destruir

E o som fúnebre do ronco dos motores
E o murmúrio lúgubre das vidas sem amores.
Daqueles que não são nada além de atores
Interpretando debilmente estes horrores
e desonras e maldades e tristezas
Mantidas pelas ganâncias e avarezas
dos privilegiados cuja esperteza 
não os faz ver o óbvio
e o inevitável.

Mas os filhos das elites não tem culpa.
Eles vivem os dramas de seus mundos fabricados
Eles vêem o mundo aos seus pés
dos altos pináculos de suas coberturas.
Por um breve instante eles pensam 
que aquilo que todos falam
que o dinheiro não compra felicidade
era, sem sombra de dúvidas,
uma das mais gigantescas verdades.



segunda-feira, 23 de junho de 2014

Na Estrada Denovo, Parte I


Nada foge da normalidade.
Reduzir a velocidade dos sentimentos
só pra ver exposta tua fragilidade.


Contra sorte não tem preventivo.
Comprei convencional,
viajei de executivo.


Andar nas ruas não é nada.
Bonito mesmo é som do mar
e ver o sol nascer na estrada.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

03:53

Nada mais efêmero e transitório que a nossa ilusão sobre o que é e o que seria o hipotético "fundo do poço".
O fundo do poço não tem lugar, o poço não existe, e essa metáfora toda soa bem errada.

Se definirmos o "fundo do poço" como um adiantamento na nossa inevitável marcha de nascimento-convalescença-envelhecimento-morte, bom, então o tal do fundo do poço continua sendo bem evitável.

Mas e se definirmos como "fundo do poço" a quebra de algumas condições psicológicas (ou psicossomáticas, dependendo do caso), quebras que levariam a um adiantamento do perecimento do corpo? Bom, daí nos expandimos muito mais os horizontes e criamos um espectro muito mais amplo sobre o tal do "fundo do poço".

Ah, sejamos existencialistas por um instante e vamos parar com essa história toda. Vamos estabelecer o "fundo do poço" no nosso fim das atividades metabólicas, no fim das nossas efemérides heroicas e do fim de nossa vida carnal como um todo. Morrer é a hipótese de "fundo do poço" mais simples e abrangente, o resto é tudo bobagem.

E, bem, convenhamos, viver vivão e são das idéias e seguir firme e tranquilo até a velhice é um negócio que a nossa espécie está fazendo com maestria nesses últimos séculos. Sim, ainda tem muito o que melhorar, mas essa é uma discussão sobre nós enquanto indivíduos e não de nós enquanto espécie. Essa é uma discussão sobre como espantar os fantasmas destes possíveis "fundos do poço".

FUNDO DO POÇO
PROFUNDO
DOPOÇO
PROTEJO
TENTO
PREFIRO
REFIRO
SUSPIRO
SUSTENTO
SUSPENDO
LAPIDO
SER BRUTO
.
SOU FUNDO
NO
TUDO
QUE
POSSO.


terça-feira, 10 de junho de 2014

Inemancipável

Mensch:
Chore pela tua solidão,
Cante para tua redenção.
Interdependetemente aflito
Ao perceber a natureza do conflito.

As tristezas fecham o arco

Individualidade é ilusão.
Buscamos aprovação
e estamos todos no mesmo barco.

Maschine:

Homo sapiens
Homo ludens
Homo electrum

Do machado a enxada

Do carinho ao moinho
Da espada a palavra
Dos seixos aos códigos
Dos espelhos ao espectros.
Sendo assim impertinente
Só digo estamos cada vez mais dependentes
Em absolutamente todos os aspectos.

Abschluss:

Humanos dependem de humanos e todos os humanos dependem de ferramentas. Poucos são os humanos que tem pleno domínio das ferramentas. Nenhum é o humano que não depende de outros humanos. E a gente não tem o menor controle sobre isso. A individualidade e a emancipação completa jamais se darão pela supressão do uso de ferramentas e pela exclusão do convívio social.




quarta-feira, 28 de maio de 2014

Rubião

III
Isso não vai mudar meus planos
pois só sei amar à moda dos parvos,
dos poetas
e das menininhas de quinze anos.

X
Napoleão III sai do Rio de Janeiro
Invade Minas Gerais
E leva junto com ele um Mundo inteiro.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cartas secretas para uma amiga anônima

Hoje me deu saudade de ti.
Não só de ti, mas do contexto todo!
Abril foi o mês mais maluco da minha vida, e não por acaso ele começou por aí!
Olhar pra trás e lembrar de tudo, e praticamente não acreditar. Mais de mil quilômetros de estrada, mais de vinte horas de viagem. E lá estava eu, e lá estávamos nós, nos vendo cara a cara depois de mais de dois anos!
E São Paulo é uma loucura! Onde mais eu ia encontrar uma exposição com manuscritos do David Bowie, ou uma aglomeração de gente tão absurda, e uma arquitetura tão maluca (do belo ao extremo brega em menos de umas quadras)?
E quantas epifanias eu não senti nessa cidade que pressentiram acontecimentos futuros vindouros? E as peregrinações de ônibus e metrôs? E ir semi-de-ressaca comer pastel com caldo-de-cana na feira?
Não, não, tudo foi muito louco e muito fantástico.
Tudo está e estará guardado num cantinho muito especial no meu hipocampo.

Ah, e só pra concluir. Lembrando de quanto eramos adolescentes em Maringá, com longos cabelos cacheados e tênis de lona vermelha conversando sobre crises sentimentais no pátio de colégio. Será que esses dois adolescente em algum momento se imaginaram discutindo suas vidas acadêmicas bebendo cerveja num banco de buteco no meio da Augusta? Ai, ai, como é bom quando o script da vida surpreende!

                                                                                         
                                                                                   Com todo o amor do Mundo,
                                                                                   Teu amigo de longa data!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Homem Normal

Tem dias que eu acordo com vontade de ser um homem normal.
Camisa polo de marca, cabelo impecavelmente curto, barba sempre bem feita.
Tem dias que eu acordo com vontade de ser um homem normal. Beber cerveja no final de semana, fazer uma faculdade particular de algum curso como administração, ciências contábeis, relações públicas ou qualquer outras dessas coisas rentáveis que não exigem criatividade.
Tem dias que eu queria ter feito uma cirurgia depois de ter lesionado meu joelho jogando bola, ou de reclamar se o almoço não tinha carne. Vontade de não me preocupar com música, literatura, comportamento, filosofia, política e essas coisas. Vontade de conseguir dizer discursos em favor dos "direitos do cidadão de bem" e criticando o "assistencialismo público" da boca pra fora e na real não dar a menor bola pra isso.
Imagina então dar bola ao preço de uma roupa! De tentar comprar um carro, de tentar comprar perfumes. Sonhar em viver uma vida de jogador de futebol no exterior!
Queria não saber como se forma a estrutura terciária de uma proteína, ou o nome dos tecidos de sustentação vegetal. Queria era poder ouvir sertanejo universitário na balada sexta e não me sentir mal com isso.
Quem sabe não me apaixonar, ser machista e machão, mas mesmo assim me juntar com alguém por inércia quando eu chegar nos 30. Quem sabe frequentar uma Igreja, quem sabe acreditar em Deus sem fazer esforço.

Na real esquece tudo!
Estou subestimando os pobres dos Homens Normais, eles também devem ter suas dores e seus tormentos, anseios e frustrações. Afinal, todo mundo é louco na sua loucura, e só o mais louco dos loucos afirma a si próprio que é normal!