quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Teu Outro



Sempre há uma janela
um fundo de cama
uma fresta de porta
uma saída à sorrelfa.

Não me importo nem um pouco
em ser o teu segundo homem.
O teu Outro que vem e some
que te ama e segue a viagem.

Teu homem não é nada pro teu todo,
não mais que uma sombra de ontem.
E eu não sou mais que uns quilos de carne,
um nome, e um coração selvagem.

E esse coração selvagem rasga
e dilacera os pulmões e as costelas
ardendo de sanha e fúria
rugindo a força das eras
e ansiando a eternidade que sempre passa.

Não te peço dê opinião alguma
e nem que dê ouvidos a mim, em suma.
Siga com teu homem, ele é a segurança
o leito oceânico que segura a tua âncora.

Só não te apequene, e se lembre
de aceitar o desafio da vida.
Tu ama e anseia a liberdade
e homem algum será teu guia.

Sou teu Outro, e sigo assim sendo
pois te amo não me arrependo.

Abra as asas, aceite o mundo
e se aceite por amar outro homem
e saiba que isso não é insensatez,
pois a gente sempre espera na vida
que alguém venha
e foda tudo de uma vez.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

Onze E Pouco Da Manhã



                ----Para J.D.A.-----

O que eu chamo de amor pode
não ser o que os outros chamam.

O amor sempre se manifestou como algo
de narcótico
de erótico
de colérico
de quimérico
de dramático.

Suba ao palco
interprete o ático
e seja a protagonista da minha vida.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma E Tantos Da Manhã




----Para J.D.A.----

                                           Teu cheiro não sai de meu nariz
                                           Teu rosto não sai de minha retina
                                           Tua voz não sai dos meus ouvidos.

                                           O ar que vem ao longe vem forte
                                           e me empurra e me leva e me esconde
                                           distante barometria simbionte
                                           que desfaz a sanidade com um toque.

                                           O que alumia também cria sombra
                                           que reverbera a onda e a refrata
                                           levando consigo o imagético do Nada
                                           e dilatando a pupila como afronta.

                                           O volume todo virado no máximo
                                           num cérebro elétrico e ligado e iônico
                                           carregando em cada dendrito e axônio
                                           a forte encefalite do ruído estático

                                           Teu cheiro não sai de meu nariz
                                           Teu rosto não sai de minha retina
                                           Tua voz não sai dos meus ouvidos.
                                         

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Pior Ser Vivo



O pior dos insones é aquele que não quer dormir.
O pior dos hipócritas é aquele que não quer mentir.
O pior dos céticos é aquele que não quer sentir.

O pior dos normais
é o que finge que é louco,
e o pior dos loucos
é o que finge que é normal.

E o tempo passa aos poucos,
gota à gota a caminho do desespero,
condenando ao degredo todo aquele
que não sabe aceitar o seu destino.

O pior sonhador é aquele que não quer dormir.
O pior religioso é aquele que não quer mentir.
O pior niilista é aquele que não quer sentir.


domingo, 5 de julho de 2015

Nosso Amor Para Ser Admirado




O amor do taxidermista
consiste em pegar
o que já está morto
e dar forma, e jeito e imagem
em um trabalho lógico e criativo
para fazer com que o cadáver
ainda pareça vivo.

O taxidermista usa química
usa proficiência
usa paciência.
Ignora o odor e a aparência
e tece sua indolor ciência.
Doando sua vida de bicho vivo
para sua obra, no bicho morto.

Cada qual com seus heróis
o bom taxidermista não recria
pura e simplesmente a morfologia.
O bom mesmo é aquele
que recria cenas, bandos
caçadas, famílias, flertes.
Aquele que imagina vida além do corpo.

E existe no mundo gente
que ama como o taxidermista.
Quer o amor morto, mas vivo.
Quer o amor estático no canto
do museu das memórias.
Imitando o que ele foi
e o que ele não foi.

Ama como quem ama uma fotografia
como que analisa uma imagem
uma obra de arte inerte.
Que desejam morto o bicho vivo dentro do peito,
para que ele esteja lá sempre
belo, perfeito, quimicamente tratado,
pronto para ser eternamente admirado.

Provavelmente todos nós
amamos como o taxidermista.














quinta-feira, 18 de junho de 2015

HaisCais Pseudo-Existencialistas [1]



                                       I.
                                       Precede o esporro.
                                       A vida é um sopro,
                                       ou um espirro?



            II.
            Albert Camus
            pegou caxumba.
            Isso é o Absurdo.


                                                                   III.
                                                                   Violão sem corda.
                                                                   Um oco cheio
                                                                   não chora a nota.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Shoegaze


Aumente a distorção das guitarras
a dispersão das palavras
as epigêneses das ruídos
e os reverbs das tristezas.

Aumente tudo
o volume
o ruído
o grave
o agudo
o médio
o ralo
o raro
o simples
o complexo
o sintético
o poético
e
o nada.

(Não se esqueça do nada,
principalmente do nada,
do zero.
É isso que deves buscar.)

Você pode cerrar o celho
subir as distorções da vida
mas deves seguir a regra-prima
em não seguir o coelho.
Tome o vinho de Dionísio,
porém com a linha de Ariadne nos pulsos
 e a Coruja de Atena nos ombros.

Invente livre
seguindo o ritmo.
O coração é uma bateria
com uma relação bumbo-caixa extremamente descompassada
e que queime na fogueira
o primeiro filho-da-puta que vier
 a conseguir metrificá-la.